Integrantes de torcida acusam PM de autoritarismo

FaixaTJC7Rebeliao

No último dia 20 de janeiro, um fato reacendeu a eterna polêmica que envolve as torcidas organizadas. Estavam em campo Confiança e Fortaleza, pela partida que marcou a primeira rodada da Copa do Nordeste. Dois integrantes da Torcida Jovem do Confiança (TJC) procuraram a reportagem do Portal Infonet para denunciar que uma faixa da torcida teria sido apreendida e não devolvida pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar.

Mesmo depois de uma série de medidas proibitivas que visavam ao enquadramento das entidades torcedoras, a relação entre as duas partes ainda não se acertou e o diálogo, que ainda havia, parece estar chegando ao fim.

Enquanto a Policia Militar aponta que as torcidas organizadas não estão respeitando as regras impostas, os torcedores acusam as forças de segurança de abuso de autoridade e tratamento discriminatório.

Torcedores dão sua versão

Os integrantes da TJC, que compõem os depoimentos da parte da torcida, não quiseram se identificar alegando o receio de retaliações: “Não podemos estar denunciando certos atos de atrocidades porque corremos risco de vida, e nada vai ser feito”, afirmaram.

FederacaoSergipanaDeFutebolEm depoimento, eles alegam que a Choque teria apreendido uma faixa com os dizeres “7ª Rebelião”, sob o argumento de que esta cometia “apologia à violência”. A faixa estava exposta na curva do lado oposto às cadeiras numeradas, região onde se localiza a Torcida Jovem do Confiança no estádio Municipal Lourival Batista, o Batistão.

A polícia acordou que o material seria devolvido no Batalhão da Polícia Militar de Aracaju, o que não teria acontecido, causando a insatisfação dos integrantes da TJC. “O dono da faixa, no caso o grafiteiro da torcida, e o designer, foram até lá e esperaram mais de três horas, e nada”.

Os torcedores também apontaram autoritarismo por parte dos policiais. “No dia do jogo a Choque queria botar a gente pra fora do estádio. Queriam bater sem a gente fazer nada, só porque teve a “onda” da faixa. Se falássemos algo, eles atribuiriam a ‘atos de violência, em que geraria mais violência’”, afirmaram.

Autoridades confirmam fato, mas concordam com apreensão

Procurado para dar outros esclarecimentos sobre o ocorrido, Milton Dantas, o Miltinho – vice-presidente da Federação Sergipana de Futebol (FSF), e ex-presidente do Confiança – confirmou que foi procurado para intermediar a negociação entre a Torcida Jovem do Confiança e o Comando da Polícia Militar.

Miltinho acredita que a faixa realmente faz apologia ao crime e que foi até o Batalhão da Polícia Militar, mas que teria retornado à sede da Federação com os dois integrantes, já que a faixa não se encontrava no local. “Eles voltaram para a Federação, inclusive, no meu próprio carro.

Eu não pude ficar, mas o combinado foi que eles aguardassem, já que o Coronel Jackson havia ordenado que o Cabo Prado trouxesse a faixa com uma viatura”, contou.

Miltinho não acredita que há motivos para achar que a ação foi exagerada: “A polícia não tem obrigação de devolver uma faixa que faça apologia ao crime. Inclusive, o Coronel informou que essa faixa voltasse ao estádio ele levaria todas e não devolveria nenhuma”. O dirigente também afirmou que acredita que a Polícia Militar de Sergipe está tendo “toda a boa vontade em dialogar com as torcidas”.

Quando questionado sobre o tempo de espera, que segundo os integrantes da TJC foi mais de três horas, causando a desistência dos torcedores, Miltinho apenas afirmou: “Se fosse do meu interesse, eu teria esperado”.

A Polícia Militar, através do Tenente Edilson Oliveira, do Batalhão de Choque, confirmou a ação, por telefone. “O comando partiu do Coronel Jackson, mas se eu tivesse visto antes já teria efetuado a apreensão”MiltinhoVicePresidenteFSF.

Ele explicou que a existência da faixa foi notada por um torcedor que se identificou enquanto Promotor de Justiça, que atentou ao Comandante Jackson, que ordenou a apreensão através da Choque. O tenente afirmou que a faixa “7ª Rebelião” fazia apologia à violência por se referir à rebelião da penitenciária do bairro Santa Maria, em maio de 2012.

Os integrantes da TJC, por sua vez, alegam que não há relações entre a faixa e o acontecimento na penitenciária: “Não tem nada a ver. É uma questão de lógica: se o nosso desenho é um detento e um dos lemas é ‘presos por esta paixão’ (o Dragão), como vamos classificar a galera que se organiza em bairros diferentes? Todas as Torcidas usam um termo diferente: família, núcleo, comando, canil etc.”, justificam.

Tanto Miltinho como o Tenente Edilson declaram não ser totalmente contrários às Torcidas Organizadas, contanto que elas respeitem algumas regras. Para o vice-presidente da FSF “O que cabe às Torcidas Organizadas até agora não foi feito: se organizar. Elas ainda não existem no papel. Não sei se é por medo de serem responsabilizados do erro de algum integrante, ou outro motivo. Mas não estão registrados”. Já o tenente afirmou que: “Tudo que for referente às torcidas eu dou meu apoio, mas não posso aceitar violência”.

Caso das bandeiras queimadas 

Segundo os depoimentos dos dois integrantes da TJC, não é a primeira vez que um material da torcida é tomado por ordem do Comando da segurança de um jogo. Na final do Campeonato Sergipano de 2012, duas bandeiras teriam sido apreendidas com o mesmo acordo de que seriam devolvidas posteriormente, mediante comparecimento no Batalhão da Polícia Militar.

“Uma ‘do tanque’ e outra do ‘Bin Laden’. Foi ordenada a retirada das bandeiras e, depois de uma conversa com o Tenente Edênio, ele garantiu que elas seriam devolvidas. Era pra gente pegar com o Capitão Melo que não estava presente no dia marcado. Quando voltamos outro dia, o próprio disse que havia queimado as bandeiras”, afirmaram os integrantes.

Os torcedores também apontam que a mudança recente no comando da PMSE – incluindo a saída de Coronel Resende do Comando Geral – a relação é de menos diálogo e mais imposição: “Ele s não gostam de Torcidas Organizadas. As reuniões são chamadas só pra dizer o que não pode conter nos estádios, como bandeiras, faixas, camisas das organizadas e bambu”, afirmam.

“Já houve uma reunião onde ele falou, em tom de ironia, que se “bagunçasse” ele iria acabar com as Torcidas. Sendo que há acabou há muito tempo, devido às proibições”, completam, se referindo ao Capitão Melo.

Ao fim do denúncia,  os integrantes reforçaram novamente o receio de ter seus nomes expostos na matéria: “Como houve com um presidente da TEC [Torcida Esquadrão Colorado, ligada ao Club Sportivo Sergipe] quando denunciou na rádio. Invadiram a casa dele e levaram todos os materiais.”, afirmaram, preocupados com a repercusão.

Os integrantes ainda apontaram que estão sendo vítimas de preconceitos: “Camisa, faixa e bandeira não agridem ninguém. Eles fazem isso porque somos da favela, gente pobre”, finalizaram.

Por Irlan Simões

Fonte e Fotos: Infonet

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