Mistos: Eles são realmente o problema?

Salve torcida azulina e demais visitantes, hoje é um tema por vezes polêmico: Os mistos. Eles atrapalham? São a vergonha do nordeste? Um fenômeno social? No texto tentaremos responder essas perguntas.

É bom explicar que eu sou misto, torço pro Vasco da Gama do Rio por herança familiar 🙂 Meus pais emigraram para a cidade maravilhosa e lá adotaram o Vasco. Na volta para Aracaju fomos morar no Bairro Industrial, e aí já sabem né… Assim, fiz esse texto tomando por  base minha experiência pessoal e alguns blogs sobre futebol.

Como o tema é polêmico, deixe sua opinião nos comentários.

Mistos: Eles são realmente o problema?

misto

Hoje vamos falar sobre os mistos, ou seja, aqueles torcedores que torcem por um time do eixo RJ-SP (com raras exceções) e para times locais. Esse fenômeno acontece aqui no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Os mais apaixonados dizem que eles atrapalham, que não são torcedores de verdade, mas será isso mesmo?

Primeiro temos que entender o fenômeno dos mistos. Eles existem por que existe uma hegemonia econômica e midiática dos grandes centros, no caso brasileiro Rio e São Paulo, desta forma é maior a possibilidade destes times terem maior estrutura, melhores jogadores, mais títulos nacionais e internacionais e exposição midiática. Ao passo que o futebol local patina em amadorismo e politicagem. Junte-se a isso com o fato do êxodo nordestino ter gerado torcedores dos times do eixo que ao voltarem para cá mantiveram essa paixão.

MistosVergonha

Como reação a esses torcedores surgem movimentos anti-mistos que buscam uma espécie de pureza futebolística, na qual você não pode ter dois amores e que isso envergonha a sua região por tirar a sua identidade, o que até faz algum sentido não fosse o erro no alvo, pois tais pessoas não são individualmente culpadas, são frutos de um sistema social no qual estamos inseridos e nem levam em conta que o fato de serem mistos já é um ponto positivo para o futebol local, visto que existe uma massa que sequer é mista, torce apenas para o time do eixo e caga para o futebol local.

Então qual a relação dos torcedores mistos com o “não crescimento”[1] do nosso futebol? É um ciclo vicioso parecido com o paradoxo tostines, pois em tempos de futebol dependente de patrocínio, uma torcida grande e participante é fundamental para a negociação de melhores contratos, mas se não há essa torcida acompanhando, a grana não vem, a estrutura mingua e menos torcedores se empolgam. Então os mistos tendem a acompanhar mais o seu time do eixo que o seu time local.

Para romper, ou frear, esse ciclo cabe aos clubes, torcedores e o próprio poder público[2] criar atrativos para os jogos locais, de forma que o conforto de casa ou do bar com tv por assinatura não seja mais interessante que a ida ao estádio. Além de divulgar mais o futebol local, visto que os meios de comunicação, mesmo os sergipanos, dão mais ênfase ao futebol do eixo.

Por fim, independente de tudo, não podemos ter preconceito e nem construir um ranking de quem é mais ou menos torcedor. Quem torce pra dois, três ou dez times e dentre eles o Confiança, deve ser sempre bem vindo aos jogos, afinal futebol é antes de tudo diversão, e a mais democrática.

Notas:

[1] A grandeza do futebol está muito além de craques badalados, investimentos milionários e títulos (inter)nacionais. O nosso futebol tem jogos disputados e emocionantes que podemos ver de perto, nos sentindo parte do espetáculo, algo que a TV não proporciona e muito menos a frieza das arenas.

[2] Entendendo o futebol como fator cultural e de identidade, ele transcendo o esporte e deve sim ser tratado pelo poder público. Veja mais no texto sobre portões abertos.

Referência

“VERGONHA DO NORDESTE”: o discurso dos torcedores “anti-mistos”

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